Richard John

Richard John. Interfaces Familiares (Nuclear 1), (2009). Fotografia. Dimensões variáveis.



Identidade e Metamorfoses




Uma imagem pode ser considerada  verdadeira  após ilimitadas reproduções? Na excessiva reprodutibilidade de imagens propiciada pelos atuais avanços da produção gráfica e tecnológica, é possível identificar o original das cópias? Questões como essas, comumente articuladas por teóricos e historiadores da arte, são discutidas fluentemente por Richard John, em textos sobre sua própria poética. Contudo, evidentemente, é através de seu próprio discurso artístico que dialogamos com os mais instigantes e singulares significados de sua arte.

Na maioria de suas explanações, Richard evidencia que se deixa absorver pela problemática da representação — não somente enquanto fazer artístico, mas, especialmente, como embasamento conceitual de seu trabalho fotográfico e pictórico. Em ambos, prevalece a investigação de uma representação produzida a partir de um referencial intrínseco à “mutabilidade e à imobilidade, simultaneamente”¹.  Ou seja, um indicativo que se apresente em processo dinâmico de transformação dentro do  fluxus  da vida e, concomitantemente, no ponto imóvel de um tempo absoluto; a “presentificação do momento”¹. "A consciência desse estado processual"¹, conforme Richard — citando o conhecido aforismo de Heráclito —  nos levaria à impossibilidade de uma repetição. 

Referenciando Barthes, seria redundante lembrar que a fotografia enquanto “golpe e corte”² decisivo no tempo e no espaço, não reproduz ações e movimentos contínuos, tal como a imagem temporalizada (fílmica e videográfica). Porém, é necessário reafirmar essa particularidade da Fotografia, quando se constata que, muito comumente, o artista contemporâneo se refere às oscilações tempos-espaciais, em uma simples sequência de imagens fixas. E, outras vezes, em uma única imagem — essa, em uma tarefa mais sofisticada que a primeira, pois que, aqui, o requinte da técnica e da metáfora, torna-se essencial. O que é relevante anotar nesse aspecto, é que, em toda a sua produção (seriada ou não), Richard alcança essa sofisticação.

A qualidade de concisão e síntese em uma única imagem (ou, em uma série) se dá por certas sutilezas do processo elaborativo da obra, amplamente descrito em suas teses. Por exemplo, Richard afirma que na busca de um referencial concomitante à um sentido de "movimento e imutabilidade", elegeu uma imagem de Jesus, a qual foi utilizada de modo recorrente para discutir a diluição conceitual e valorativa de um ícone em incontáveis reproduções realizadas através dos séculos, e em quase dois mil anos de História da Arte, uma pesquisa que resultou em um trabalho de pintura intitulado Morphing Jesus (1995). 

Posteriormente, em um prolongamento dessa mesma proposta, o artista utilizou o software Morphing³, um programa gráfico para computadores,  para produzir imagens seriadas e repetitivas, nas quais sua própria face se metamorfoseia na face de Jesus. Assim sendo, ao agregar seu rosto (identidade física) a um contexto religioso (identidade cultural), o artista se propôs abordar metaforicamente, a aglutinação das interpretações pessoais na produção e na apreciação de quaisquer imagens representativas, e, portanto, uma situação geradora de transformações das simbologias originais. Um processo antagônico ao estatuto da imagem icônica que requer a preservação das acepções do contexto sociocultural na qual foi produzida.

As referências a esses enredamentos de percepções da obra em deslocamentos espaços-temporais, nos reportam principalmente ao processo criativo, o qual nunca está imune à conjuntura histórica. A representação, mesmo que impregnada da imaginação do artista, emergirá em determinado contexto. E assim, na percepção de toda representação, o que é real e o que é imaginário (história e alegoria) permanecerá em uma linha tênue de diferenciação. Provavelmente, será esse o motivo pelo qual, nas percepções imediatistas, a ilusão sempre prevalecerá. Mas, o objetivo de toda representação, não será mesmo a utopia?

Uma possível leitura para a imagem do rosto do artista metamorfoseado de Jesus aponta para o conceito cristão de ubiqüidade divina (essa, uma outra questão mencionada por Richard em seus escritos). Por conseguinte, uma representação da Onipresença: a translação de uma metamorfose utópica e silenciosa. E, expandindo esse significado, seria essa uma analogia à própria arte que em seus conceitos é invisível? E que, ao mesmo tempo, através dos ventos midiáticos e disseminadores da tecnologia, pode estar em toda parte? A fusão “criador & criatura”, seria uma alusão ao axioma “artista & obra”? Ambos formando uma unicidade tal que nos impossibilitaria distinguir o artífice de sua própria  invenção?  Muitas são as perguntas diante desses singulares trabalhos, os quais, em seu inquietante silencio, nos indagam mais do que respondem. Como uma esfinge que nos observa. Ou, a visão de nossa própria face ao espelho.

Tanto em  Morphing Jesus (1995) quanto em seu trabalho atual intitulado Interfaces Familiares (Nuclear 1), (2009), percebe-se que o artista especula constantemente sobre a possibilidade de alterar sua identidade em contato com  o outro. Nesses dois distintos projetos, as imagens construídas parecem congelar não o movimento intermediário dessa transformação, onde seria possível ainda perceber duas diferentes faces, porém, o instante mesmo em que seu rosto já está absorvido pelos contornos do outro e se apresenta como um único,  uma outra identidade.

Porém, agora, diferentemente do trabalho anterior, e novamente utilizando o software morphing, Richard amalgama a sua face com a de seus familiares: pai, mãe, filha e esposa — e não mais com uma imagem de simbologia religiosa. Esses quatro diferentes momentos de metamorfose são destacados pela apresentação de um políptico composto por quatro fotografias dispostas separadamente, uma ao lado da outra. Em cada uma delas, sua face (identidade)  está contaminada pelo entorno. Ou, apenas impregnada de sua própria vida, da história de seus próximos, da existência de seus entes queridos, os quais também constroem sua própria identidade. Enfim, “um sujeito-fluxo em permanente mutação”¹, congelado no instante infinitesimal do tempo presente, "onde passado e futuro se encontram e se aniquilam"¹.  Como a representação do Tempo em suspenso, em meio ao turbilhão de uma metamorfose extraordinária, única e impossibilitada de repetição.


 Dione Veiga Vieira
 Dezembro/2010



Notas

[1] - JOHN, RichardIn As faces da origem: morfologias possíveis para uma poética de identificações. Dissertação de mestrado em Poéticas Visuais. IA — Instituto de Artes — UFGRS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1998.

[2] - BARTHES, Roland. A Câmera Clara. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984. 

[3] - Software que possibilita “gerar transformações (animadas ou estáticas  quadro a quadro) em continuidade, sem quebras bruscas ou sobrepostas, entre imagens completamente díspares”. (JOHN, Richard in dissertação de mestrado. UFRGS, 1998).



O TEMPO CONTAMINADO/El TIEMPO CONTAMINADO



A exposição O Tempo contaminado/El Tiempo Contaminado,

no Atelier Subterrânea, reúne dois países. Com curadoria conjunta

da brasileira Dione Veiga Vieira e do chileno Sergio González Valenzuela,

a mostra reúne obras em fotografia dos artistas brasileiros Fabio Del Re,

Lenir de Miranda, Richard John, e das artistas chilenas Antonia Cafati,

Antonia Cruz, Macarena Fernández e María Jesús Olivos.

O recorte curatorial traz um olhar atual sobre os usos da fotografia

nos processos artísticos contemporâneos no Brasil e no Chile, propondo

um debate sobre o estatuto da imagem, em que os eixos centrais são

o corpo e sua temporalidade. Haverá sorteio de obras doadas pelos

artistas a partir das 21h e os números estarão à venda no local a R$ 5,00.

A exposição fica em cartaz até o dia 17 de outubro, com visitação das 14h às 19h.

O que: exposição O Tempo contaminado/El Tiempo Contaminado
Quando: 15 de setembro a 17 de outubro, de segunda a sábado, das 14h às 19h
Onde: Atelier Subterrânea (Independência, 745/Subsolo)
Quanto: entrada franca

Fonte: Jornal do Comércio

Maria Jesus Olivos - DIVULGAÇÃO JC

Maria Jesus Olivos - DIVULGAÇÃO JC
Obras estão em exposição no Atelier Subterrânea até outubro.